Uma carta para um desconhecido
Oi! eu nunca achei essa forma muito adequada pra
começar uma conversa–por mais que eu esteja só- , mas, OI! Oi, sei lá quem.
Quem é você? É... Tudo bem? É que na verdade eu só queria te dizer que você
estava ali, parado no sinal vermelho em ponto morto, mas eu te olhei tão vivo e
distraído que estacionei meu olhar em ti e bem ali me encantei.... É! Eu sei
que isso vai te soar estranho por mais que eu nem saiba qual seja o seu
conceito de estranheza. Não, não! VAMOS RECOMEÇAR. É.. Oi! Eu não sei bem por
onde você ia, mas, eu queria ir para o mesmo lugar. Se eu pudesse te falar
agora eu falaria o quanto eu pensei e repensei no quanto podíamos ser felizes
juntos. É! Eu pensei! Mas, talvez se você me conhecesse teria fugido dessa
minha loucura de imaginar demais, eu inclusive imagino que se um dia você
pudesse ler essa carta você estaria sentado, só que dessa vez não no banco seu
carro –um Siena, inclusive- você estaria
dessa vez em uma cadeira de madeira velha e com um copo de Nescau na beira da
mesa, isso! Nescau! Sim, claro! Eu imagino que você goste muito porque é a
minha bebida predileta, e é por isso inclusive que eu imagino. Também imagino
que se você tivesse lendo essa carta agora estaria pensando no quanto eu sou e
fui atirada em me vidrar na janela do carro e te olhar bem discarada, mas, não
me importa. Se eu te visse agora eu não tentaria te convencer que eu sou
tímida. Sim, eu sou t-i-m-i-d-a. Eu não sei o que me prendeu, mas eu sei que
foi você. Eu te escrevo agora e nem sei o porquê e nem o seu nome, mas, mesmo
se eu soubesse daquele instante até agora eu te chamaria de amor, é! Amor por
me fazer pulsar inquietações gostosas, por querer colocar anúncios do tipo
‘’procura-se o amor do carro ao lado’’, por imaginar e me fazer planejar uma
vida ao seu lado, inclusive filhos -Sim, os fizemos em segundos, na verdade eu
fiz só-. Tudo isso enquanto a porra do sinal não abria para seguirmos nossas
vidas como apenas desconhecidos. Mas, olha, não demorou muito e o sinal abriu,
agora não importa o quanto tentemos nos acompanhar, pessoas entram na frente e
eu tenho que acelerar, mas, afinal, para onde é que tu vais? Eu imagino que vá
dá a volta e no retorno me encontre parada bem na esquina, te esperando. -Claro!
Mas vou fingir que não -. É ... eu
imagino muito! Costumam dizer que eu tenho a imaginação fértil e que isso não
cabe ao mundo real! Então... OI! Oi você que poderia ter sido o amor da minha
vida mais que dobrou a esquina e não nos vimos nunca mais. Oi você desconhecido
que parou no sinal vermelho no ponto de trás. Oi, é isso! Na verdade, eu só
queria te dizer OI, mesmo sendo a melhor ou a pior forma de iniciar um diálogo
eu só queria inicia-lo, mas, agora eu estou aqui te escrevendo entalada e tola
por não ter te dito um simples OI!
Atenciosamente,
A moça do carro ao lado, uma mariaqualquer.
A moça do carro ao lado, uma mariaqualquer.